Numa análise mais geral, Lula da Silva perderia aquele que é para muitos o seu maior aliado na Europa: Emmanuel Macron, o presidente francês. Por outro lado, teria mais tempo para alimentar relações com potências regionais, como a Índia, na Ásia, e o México, na América Latina.
Já Flávio Bolsonaro teria pelo menos dois anos de proximidade com a América de Trump. Para além de vizinhos latino-americanos ideologicamente próximos, como no Chile, com José Antonio Kast, na Colômbia de Abelardo de la Espriella e com Rodrigo Paz, na Bolívia.
Seja quem for, na agenda de política externa, o próximo presidente brasileiro tem três grandes desafios urgentes. Reconstruir a relação com os Estados Unidos, garantir que fica numa posição pacífica na competição entre Washington e Pequim e reorganizar a coordenação política e económica regional perante uma América do Sul fragmentada.
Vamos por partes, seguindo algumas análises de especialistas ouvidos pela comunicação social brasileira.
Donald Trump
É consensual que a relação com os Estados Unidos vai ter um papel-chave no caminho do próximo presidente do Brasil. Até porque metade do próximo mandato presidencial atravessa o Governo de Trump.
Foto: Brian Snyder - Reuters
"Se o desafio de Lula seria reagir a Trump, o de Flávio seria como materializar a agenda, interna e regional, que a Casa Branca espera de um Brasil alinhado aos EUA", sintetiza Otaviano Canuto, professor na Universidade George Washington.
Donald Trump
É consensual que a relação com os Estados Unidos vai ter um papel-chave no caminho do próximo presidente do Brasil. Até porque metade do próximo mandato presidencial atravessa o Governo de Trump.
Sendo certo que o objetivo é, tanto para Lula como para Bolsonaro, no entender dos especialistas, convencer a Casa Branca de que o Brasil não é um rival dos Estados Unidos.
"Essa precisa ser a prioridade máxima, porque não podemos entrar na mira dos Estados Unidos. Basta ver o que aconteceu com os venezuelanos e com os iranianos", avisa Feliciano de Sá Guimarães, cientista político e professor na Universidade de São Paulo.
Isto porque, com Trump, a relação de Washington com Brasília ganhou várias interrogações. A relação entre os dois países tem por base uma política de Estado independente do presidente? Ou, pelo contrário, faz parte de uma estratégia para a América Latina, marcada pela tentativa de domínio político e económico?
China
Em 2025, a China foi o principal destino dos produtos brasileiros no mercado global, de acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
Nesse mesno ano, o Brasil foi o país onde a China mais investiu no mundo graças a um aumento de 45 por cento em relação a 2024.
Em 2025, a China foi o principal destino dos produtos brasileiros no mercado global, de acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
Nesse mesno ano, o Brasil foi o país onde a China mais investiu no mundo graças a um aumento de 45 por cento em relação a 2024.
Por outro lado, os EUA investiram menos em negócios brasileiros no ano passado, apesar de permanecerem como o grande investidor do Brasil.
Os números e o papel do Brasil nos Brics (grupo de países emergentes do qual faz parte, por exemplo, a China) mostram que este bloco “é uma realidade económica importante para o mundo”.
O Brasil mostrou a Washington que pretende seguir uma agenda de soberania nacional. Os Estados Unidos veem isto com desconfiança.
O que significa que “estamos presos nessa armadilha: sempre que os americanos usam instrumentos coercivos contra o Brasil, o Governo brasileiro liga para Xi Jinping e consegue algum tipo de benefício — um novo acordo, um investimento, um tratado, etc. ", explica Feliciano de Sá Guimarães.
"Para sair disso, o próximo governo vai ter que criar uma estratégia de negociação trilateral. É a única forma de não ser capturado pela rivalidade EUA-China".
Alguns desafios na economia
Os analistas esperam que em 2027 o desempenho da economia brasileira enfraqueça ainda mais do que em 2026.
Eles sublinham que entre os principais desafios para 2027 destacam-se: o endividamento das famílias e das empresas; a confusão das contas públicas; os efeitos do fenómeno climatérico El Niño.
Também o Fundo Monetário Internacional prevê que o crescimento da economia brasileira perca fôlego. A previsão do FMI é de um crescimento de 2,2 por cento para 2026 e 1,9 por cento em 2027 - uma revisão em baixa em relação às projeções divulgadas em julho. Segundo o FMI, a desaceleração do crescimento económico reflete "condições monetárias ainda restritivas voltadas para a inflação, para a retirada de estímulos da política fiscal e pela incerteza global".
A expectativa do Fundo Monetário Internacional é a de que a inflação caia, mas que o desemprego aumente.
O FMI prevê que a inflação brasileira seja de 4,4 por cento este ano e desça para 4,1 por cento em 2027.
Quanto ao desemprego, deverá subir para 6,2 por cento este ano e 6,8 por cento em 2027.
Estas previsões são justificadas com três fatores: a redução mais lenta do que era esperado da taxa de juros, o aumento do endividamento e a redução do impulso fiscal pelo Governo, após a eleição.
A estes fatores juntam-se condições financeiras mais desfavoráveis com juros mais altos no mundo e o petróleo em alta.